domingo, 8 de março de 2015

[Mochilão 13] Dia 3: Jaipur


Alguns dados sobre Jaipur: a cidade tem 3 milhões de habitantes, é a capital do estado do Rajastão (fonteira com o Paquistão), que é considerado o mais bonito do país, muito procurado por turistas. É a terra dos palácios, elefantes e marajás. Dizem que é "onde a Índia é mais Índia". 

Localização do Rajastão no mapa da Índia:


A novela Caminho das Índias, da Rede Globo, teve cenas gravadas em 2009 aqui em Jaipur:




Acordei tarde, 11h da manhã. Foi um sono merecido depois de tantas horas viajando. Estava sonhando com pessoas falando num idioma incompreensível, e de repente acordei com os funcionários do hotel conversando em hindi no corredor.

Falei com o recepcionista que tinha me recebido de madrugada. Na verdade ele é o dono do hotel. Ele mora com a família no próprio local, chamado de "guest house". Troquei o quarto por um com cama de casal e banheiro, bem melhor que o outro onde dormi. Diária muito barata (500 rúpias = R$22). O primeiro quarto saiu por apenas 300 rúpias (R$13).




Detalhe da pintura na parede:


Privada oriental. As pessoas aqui fazem o "número 2" de cócoras, igual cachorro...hehe. O banheiro tem balde e caneca como o de ontem, mas pelo menos o uso é opcional, porque tem chuveiro.


Comi uns biscoitos que tinha trazido de casa pra enganar a fome enquanto não achava algum lugar pra comer algo.

Corredor:


Terraço onde tem um bar:


Vista da rua:



Imagens de deuses hindus dentro do hotel:




Recepção:


Frente do hotel:



Rua do hotel:



Ao sair do hotel, fui imediatamente abordado por um motorista de tuc tuc (autoriquixá) querendo saber aonde eu estava indo, e ficou dizendo que me levaria aonde eu quisesse, que poderia fazer um city tour comigo, etc. Eu nunca pego tuc tuc na frente dos hotéis porque eles costumam ser mais caros que aqueles que passam aleatoriamente nas ruas. Me livrei dele e fui andando sem rumo pelas redondezas.

Logo de cara foi um choque caminhar pelas ruas próximas ao hotel. Deu para ver como a Índia é pobre e subdesenvolvida. As ruas são muito sujas, com valas onde passa esgoto a céu aberto, e as construções têm um aspecto favelizado. Os indianos na rua me olhavam como se eu fosse o ET de Varginha, ehehhehe. E vi umas coisas muito diferentes e engraçadas: barbeiro na calçada, vacas no meio do trânsito, grupos de homens jogando cartas na calçada (no chão mesmo), pessoas com umas roupas engraçadas, comidas estranhas sendo feitas em barracas nas calçadas, e muito mais. Isso tudo foi nos primeiros 5 minutos de caminhada, tempo suficiente para me deixar totalmente desnorteado com tanta coisa estranha !!

Estava sol e uma temperatura bem agradável, 25 graus. No verão a sensação térmica chega a 50 graus...imagina isso !! A alta temporada aqui é entre novembro e março, época em que chove muito pouco e a temperatura é mais agradável.

Parei num bar pra comprar uma água de 1L (20 rúpias = R$0,90). Repara a sujeira em frente ao bar:


Já passava de 13h e bateu uma fome. Tinha muita gente comendo na rua, que tinha umas barracas vendendo umas coisas fritas estranhas. Neeem pensar em comer nada disso. Passei longe.


Andei até uma rua mais movimentada e fiquei impressionado com a bagunça no trânsito. Uma selvageria terrível. Tem muito mais motos e tuc tucs que carros, e eles fazem umas barbeiragens inacreditáveis. Sem falar que fica todo mundo buzinando o tempo todo. Achei engraçada essa placa de "Não Buzine", que é solemente ignorada pelos motoristas:


Parei um tuc tuc e negociei o preço de 120 rúpias (R$5) para me levar até o New Gate, um dos portões da Cidade Antiga:




O motorista dirigia feito um louco, tirando fino de várias motos, pedestres que caminhavam no meio da rua (e outros que atravessavam se metendo no meio dos carros), bicicletas, ônibus e riquixás. Brinquedo divertido esse, ehehehhe !!!



Uma moto com 4 pessoas !!


Depois de uns 20 minutos de fortes emoções no tuc tuc, cheguei ao New Gate. A Cidade Antiga de Jaipur (também chamada de Pink City) era toda cercada por muralhas na Idade Média. Parte delas ainda existe atualmente, e os portões foram preservados. .



A Pink City tem as construções todas pintadas de rosa, que para os indianos é a cor da hospitalidade:


Um riquixá:


Toda hora eu passava por um templo hindu. Tinha uns grandes, e uns bem pequenos nas copas das árvores, como esse. Respirava-se muita religiosidade nas ruas.



As ruas na Pink City era MUITO sujas, e o cheiro era uma mistura de incenso, lixo, esgoto, óleo queimado dos tuc tucs e frituras de todos os tipos que eram vendidas nas calçadas:


Mulheres com saris coloridos:


Os carros, motos e tucs tinham que ficar desviando de vacas, que ficavam às vezes no meio da rua bloqueando o trânsito. Como são consideradas sagradas na Índia, ninguém mexe com elas, e nenhum motorista parece se importar em ser atrapalhado no trânsito por elas.


Outra coisa que chama a atenção é que as calçadas são muito estreitas e sempre tem um monte de vendedores de tudo o que se possa imaginar, então a maioria das pessoas anda na rua mesmo, com os carros, motos e tuc tucs passando muito perto delas. E as ruas são sempre cheeeeias de gente. São 1,2 bilhão de indianos para um território que equivale a 1/3 do Brasil. É gente que não acaba mais.

Vendedoras de panelas e talheres na rua principal da Pink City:


A rua principal da Pink City, que concentra o comércio. Vende-se de TUDO: especiarias, roupas, tapetes, comidas, panelas, ferragens, e muito mais. Além das lojas, tem camelôs nas calçadas e também na rua.


Comidas que não faço ideia do que sejam:







Passando por um portão em meio ao caos urbano, surge um oásis, o Hawa Mahal (Palácio dos Ventos), construído em 1799 pelo marajá Sawai Pratap Singh para que as mulheres da realeza pudessem observar o dia-a-dia da cidade sem que ninguém de fora conseguisse vê-las.

Entrada:


O ingresso custa 50 rúpias (R$2,20) para estrangeiros e apenas 10 rúpias (R$0,50) para indianos. Maior discriminação com a gente, heim !!


Interior do palácio:












Essas indianas estavam tirando fotos em comemoração ao Dia Internacional da Mulher:



Vista do topo do palácio:




Nesta parte ficavam as mulheres, e elas podiam observar a rua através de pequenas janelas na fachada:


O outro lado da fachada:


Vista da rua: 


Video que gravei com a vista da rua e o barulho das buzinas:



Saí de lá e voltei para o caos urbano.

Gandhi e outros célebres indianos:



Loja de turbantes usados em casamentos:


Camelô se protegendo do sol:


Banheiro público. O que mais se vê são homens "tirando uma água do joelho" em qualquer canto por aqui. Imagina o cheiro que fica nas ruas...


Estacionamento de riquixás:


O Jantar Mantar (que significa "instrumento de cálculo") é um observatório astronômico construído no século 18 pelo marajá Jai Singh II, o fundador de Jaipur. Ele era um apaixonado por astronomia.

Entrada:


O local tem diversos instrumentos de medição de astros. Muito interessante.



Astrolábio:


Relógio solar com precisão de 20 segundos:





Parece uma banheira, mas é um instrumento que calcula as coordenadas de um astro:


Cada signo é representado por um instrumento que mapeia as coordenadas da constelação correspondente:


Instrumento que mapeia a constelaçao de Áries, meu signo:



Típica família indiana:


Na saída, fui abordado por um motorista de tuc tuc que me propôs conhecer o Jal Mahal (palácio), um lugar onde cuidam de elefantes e outros lugares que não tinha entendido o que era. Tudo por 110 rúpias (R$5). Normalmente eu ignoro esses motoristas que ficam perseguindo os turistas, mas achei que estava barato e resolvi dar uma chance.

Um video que gravei no tuc tuc:



Paramos primeiro no Jai Mahal (Palácio das Águas), localizado no meio do lago Man Sagar. 


O lugar estava lotado de indianos por ser um domingo. Estava muito sujo e cheio de vendedores ambulantes.


O tuc tuc que escolhi para fazer o passeio:


Na segunda parada, o motorista entrou numa zona residencial próxima ao lago. Era um bairro "normal" em Jaipur, mas para nossos padrões seria uma favela, incluindo todos os atributos esperados: muito lixo, casas precárias, esgoto a céu aberto, gente miserável, crianças maltrapilhas brincando nas ruas em meio a sujeira. Só faltou mesmo o tráfico de drogas, as biroscas e os bailes funk.

Paramos num "criadouro" de elefantes, que são utilizados para transporte na Índia. Uma grande fonte de renda dos criadores de elefantes é oferecer passeios para turistas. Diz-se que os elefantes sofrem maus tratos na mão destes criadores.



O motorista depois me levou para uma tecelagem artesanal, mas eu preferi não entrar. Além de não me interessar por isso, eles iam com certeza ficar empurrando coisas para eu comprar. Depois ele começou a me perguntar quanto custa um terno no meu país, e disse que é muito barato na India quando comprado direto dos "tailors" (alfaiates). Imagina eu carregando um terno no mochilão !! Já cortei logo o papo dele e falei pra me deixar de volta na Pink City. Quando já estávamos indo embora, um dos operários da tecelagem, ao ver que eu não quis nem entrar para ver o trabalho deles, veio com uma cara feia no tuc tuc e disse:

- Não somos criminosos. Você pode entrar e ver nosso trabalho. Se você não quiser comprar nada, não compra. 

Velha tática de vendedor querendo sensibilizar o cliente. Falei pro motorista pra gente ir embora logo. Ele me deixou de volta na Pink City meio desapontado, porque deixou de ganhar a comissão sobre vendas que teria se eu comprasse alguma coisa. Escolheu o cara errado, hehe.


Um dos portões da Cidade Antiga:


Os ônibus em Jaipur são terríveis, caindo aos pedaços:


Vacas atrapalhando o trânsito:



Um macaco feliz que ganhou uma banana de um vendedor. Isso foi numa das principais avenidas da cidade.


Trânsito selvagem, com todo mundo buzinando e fazendo manobras radicais:


Vendedores de artesanato:


Sapateiro:


Vendedor de alguma coisa frita. Praticamente tudo que se vende na rua é frito, pelo que reparei.


Vendedor de colares de flores, usados em templos hindus:


Jama Masjid, a principal mesquita da cidade. 80% da população indiana é hindu. Os islâmicos são minoria, mas andando na rua vê-se mulheres usando burca ou véu, e alguns homens também com roupa tradicional e barba grande.



Jantei no restaurante Natraj, na MI Road, a principal avenida da cidade. É um restaurante vegetariano. Estava quase vazio. Só um par de mesas ocupadas por ocidentais. Não gosto muito de comer em lugar "pra gringo", porque quase sempre são muito mais caros do que deveriam ser. Há uma palavra em inglês perfeita para descrevê-los: "overpriced". Prefiro ir em lugares onde os próprios habitantes locais vão. O problema é que na Índia são muito poucos os que podem jantar num restaurante decente como esse, então quase não se nota a presença dos indianos nestes locais.



Samosa de entrada (50 rúpias = R$2,20). Parece um pastel triangular, com recheio de massa de ervilha, batatas e especiarias:



Dosa paper masala, um crepe enorme com recheio de batata e especiarias. Muito bom !! Bem picante. Foi uma recomendação do guia Lonely Planet. 170 rúpias (R$7,40)



Molho de gengibre, e os outros dois eu não identifiquei de que eram:


Depois que pedi a conta, chegou essa tigela com água e limão. Achei que fosse algum chá ou algo assim. Antes de eu experimentar, o garçom, provavelmente já acostumado com as gafes dos turistas, avisou que não era para beber, e sim para lavar as mãos, ehehhehehe.


A conta deu 330 rúpias com impostos e taxa de serviço, o que equivale a R$14. Muito barato !!

Uma nota de 500 rúpias. Todas as notas de rúpias tem a figura do Gandhi. Isso mostra o quanto ele é admirado pelos indianos.


Junto com a conta chegaram esses potes com sementes de anis para mascar junto com açúcar em cubinhos. É para aliviar a ardência da pimenta na boca.


Resolvi voltar andando pro hotel. Estava mais ou menos perto, uns 20 minutos de caminhada. Algumas ruas eram bem complicadas de atravessar, porque não tinham semáforo !!! Os indianos iam se metendo na rua pelo meio dos carros, que ficavam desviando deles. Depois de uns 10 minutos esperando o trânsito dar uma aliviada, mas não parava de passar carro e moto. Esperei chegar um pedestre indiano, respirei fundo e fui no embalo junto com ele. Os carros ficavam desviando da gente. Sensação estranha, meio kamikaze. E deu certo...com a proteção dos deuses hindus, chegamos inteiros do outro lado da rua.

O principal cinema da cidade estava passando um filme indiano. A Índia é a maior produtora mundial de filmes, que são feitos sob medida para a cultura local. 


No caminho vi algumas lojas de marca, onde a maioria da população não pode nem pisar. Há cadeias de fast food ocidentais também, como McDonald's (sem carne bovina), KFC e Subway.


Um templo hindu:


Sujeira na rua:


O dia inteiro eu fui abordado por motoristas de tuc tuc e riquixás. Tem que ter uma paciência infinita e abstrair isso, senão você enlouquece. A tática é sempre a mesma. Começam perguntando onde estou indo e depois de onde eu sou. Aí ficam tentando te convencer a ir com eles, falando que é "very cheap" ou que é "dangerous" turista ficar andando sozinho na rua (mentira, a Índia é MUITO segura).

Loja da Audi, coisa para muito poucos indianos. Você até vê alguns carros mais novos na rua, mas a grande maioria das pessoas anda de tuc tuc, moto ou de ônibus. Há também uns tuc tucs maiores que são quase vans, e elas andam apinhadas de gente, um negócio terrível.


Uma torre moderna:


Voltei para o hotel. Enquanto estava tomando banho, dava para escutar a discussão entre o casal de alemães vizinhos de quarto. É que os banheiros dos quartos vizinhos tem essa parte vazada na parede. Não sei se fizeram isso para melhorar a ventilação, mas na prática você escuta tudo que está acontecendo no banheiro vizinho: revoluções intestinais, cânticos de chuveiro, e outra coisas não exatamente agradáveis de se ouvir. Com uma população tão grande num pais não tão grande assim, é de se esperar que o conceito de privacidade não seja muito conhecido pelos indianos.


sábado, 7 de março de 2015

[Mochilão 13] Dia 2: Jaipur


Foram 13:20h de voo até Abu Dhabi. Viajei pela Etihad, empresa aérea dos Emirados Árabes que está entre as melhores do mundo. Serviço excelente, comissários solicitos, comida gostosa, mas.... por melhor que seja a empresa, viajar de classe econômica durante muito tempo é sempre desconfortável. Como nunca consigo dormir nesses voos longos, fico tentando arrumar um jeito de fazer o tempo passar mais depressa. Assisti "Velozes e Furiosos 5 - Operação Rio". Bem ruim o filme, mas pelo menos curti as mentiradas cinematográficas ao estilo Missão Impossível. Depois fiquei relendo alguns capítulos do livro "Expresso para a India". Já reparou que quando a gente quer que o tempo passe mais depressa, parece que ele passa mais devagar, só pra te sacanear ? Ainda faltavam uns 3 filmes inteiros pra chegar:


Finalmente cheguei em Abu Dhabi já de noite (+7h de fuso). O aeroporto de lá era uma babel, um resumo do mundo. Gente de tudo quando é lugar, de todos os tamanhos e raças imagináveis.

Fiquei só 2h esperando lá. Chamada para embarque:



Até Jaipur foram 3h de voo. No avião, de ocidental só tinha eu e mais 4 pessoas. Todos os demais eram indianos homens com aparência humilde. Provavelmente eram trabalhadores nos Emirados Arabes, país que depende fortemente da mão de obra barata de indianos e paquistaneses na construção civil e outros trabalhos de menor remuneração (garçons, cozinheiros, taxistas, etc).

Uma revista de bordo, com as "cobrinhas" árabes:


Serviram no jantar cordeiro assado com arroz, um clássico da comida árabe. MUITO BOM ! Cordeiro é a carne que eu acho mais saborosa. Pena ser tão cara no Brasil.

Na fileira da frente de onde eu estava sentado tinha um indiano que não parava de falar. Ficou falando (quase berrando) coisas incompreensíveis em hindi as 3h inteiras do voo. Nunca vi nada parecido. Estava conversando com outro cara que não falava nada, só balançava a cabeça concordando.

Chegando em Jaipur:


Cheguei às 3:30h da manhã (+8:30h de fuso, então pra mim na verdade eram 19h de sábado ainda).

Logo nos primeiros minutos em território indiano, ao desembarcar, já pude perceber a bagunça que eu ia encarar pelos próximos dias. Antes de passar pelo controle de passaportes, havia uma fila para entregar um papel declarando não ter os sintomas do ebola. O papel tinha que ser carimbado por dois médicos que estavam sentados numa mesa. Quer dizer, nos primeiros minutos era uma fila, mas depois virou uma zooooona só. Os indianos começaram a furar a fila, e aí vinham outros furando na frente dos que já tinham furado, todo mundo berrando em hindi com os ânimos exaltados. Na frente da fila, todos se acotovelavam querendo dar o papel para os médicos carimbarem antes dos outros. Alguns ocidentais olhavam perplexos a cena (me incluo nessa), sem saber o que fazer. Aí apareceu um guarda que ficou com pena dos pobres ocidentais, nos chamou para a frente da fila, recolheu nossos papéis e deu para um dos médicos carimbar. Na prática, ele furou a fila para a gente, mesmo sem a gente ter pedido, hehehehe. E o melhor, furamos a fila de quem tinha furado a fila na nossa frente, sendo que esses já tinham furado a fila na frente de outros ! Achou meio confuso ? A Índia é assim mesmo, mas no final tudo se resolve com a proteção dos deuses hindus. :-) 

Logo depois, passei pelo controle de passaporte. O guarda não perguntou nada. Só carimbou e falou "welcome". Brasileiros precisam de visto para visitar a Índia. A boa notícia é que o governo indiano liberou no ano passado o "visa on arrival" para turistas brasileiros, o que é um grande adianto. Isto significa que podemos tirar o visto ao desembarcar nos principais aeroportos da Índia (como Nova Delhi e Mumbai), nos livrando de toda aquela aporrinhação que é tirar visto em consulado. Acontece que o aeroporto de Jaipur, por onde entrei na Índia, ainda não aceita o "visa on arrival". Não tive escolha senão encarar a famosa burocracia indiana: algumas semanas antes da viagem me cadastrei no site do governo indiano (http://indianvisaonline.gov.in), paguei R$185,00 de taxa no Santander, e enviei meu passaporte por Sedex para o Consulado Geral da Índia em SP junto com toda a papelada: comprovante de pagamento bancário, foto 5x7, formulário preenchido, carta ao cônsul indiano autorizando a devolução do passaporte pelo correio, e um outro envelope preenchido para ser usado pelo consulado na devolução do passaporte, o que foi feito via Sedex 3 dias depois. Algumas perguntas do formulário que preenchi eram bem estranhas, como minha religião, se eu tinha algum sinal visível de identificação (ex: tatuagem ou cicatriz) e se meus avós eram paquistaneses (oi ?!).

Depois de pegar a bagagem, o controle alfandegário era bagunçado também. Uma fila enorme, e mais gente furando fila, para variar. Um cara embicou o carrinho de bagagem na minha frente, na maior cara de pau, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Eu fui e tentei passar a frente dele de novo. Aí veio outro e se meteu na frente de nós dois !!! O primeiro indiano não fez nada. Deve ser normal, algo cultural mesmo.... Deixei pra lá.

Apesar do horário (mais de 4h da manhã), estava bem movimentado o lado de fora do aeroporto, com muita gente saindo e muitos carros passando para buscar passageiros. Era bem confuso, porque não havia uma fila para taxi. Os taxis no aeroporto funcionam com preço tabelado e pagamento antecipado em guichês na saída do saguão de desembarque. O primeiro guichê de taxi que aparece logo quando você desembarca sempre é o mais caro. Isso parece ser verdade em qualquer lugar do mundo. No caso de Jaipur, a corrida da primeira empresa saía a 680 rúpias (R$31). Perguntei num outro guichê um pouco mais afastado, e era bem mais barato (450 rúpias=R$20,50).  Depois de pagar, fui levado pelo motorista até o estacionamento onde estava o taxi.


No caminho deu pra ver que realmente se trata de um país MUITO pobre. Vi alguns edifícios modernos e lojas da Porsche, Audi e Mercedes em ruas empoeiradas com uma aparência favelizada, muito lixo, vacas, mendigos e auto-riquixás fazendo barbeiragens inacreditáveis. O motorista do taxi buzinava feito um louco sem motivo nenhum, mesmo quanto não tinha ninguém na nossa frente.

O taxista, no meio do caminho, estranhamente disse que precisava do telefone do meu hotel. Ele ligou do celular dele, falou alguma coisa incompreensível em hindi no telefone, e ficou por isso mesmo. Deve ser algum procedimento normal aqui, mas não entendi o propósito.

Ao chegar no hotel (Vinayak Guest House), o recepcionista, que parecia que tinha acabado de acordar, perguntou se eu tinha reserva e qual o tipo do quarto que eu tinha reservado. Eu havia reservado um quarto individual com banheiro. Ele disse que não tinha esse quarto disponível, mas de manhã ia dar um jeito pra mim. Só havia um quarto sem banheiro disponível aquela noite. Não tive opção. Era isso, ou encarar ruas desconhecidas de um país desconhecido, sozinho, de madrugada, e pedindo licença para as vacas para encontrar outro hotel. Preferi dormir nesse quarto mesmo.

Hora do banho merecido antes de dormir. E aí veio o fato inusitado: o banheiro coletivo era um cubículo com cheiro de mofo que tinha duas torneiras, um balde e uma caneca. Não tinha um...digamos.... chuveiro, do jeito que a gente conhece. Uma torneira saía com água gelada, e a outra com água fervendo. E dá-lhe banho de caneca !!




O quarto era uma espelunca. O chão não via uma vassoura há séculos, e a roupa de cama parecia ter sido trocada uns 30 hóspedes atrás. Não tive coragem de deitar minha cabeça naquele travesseiro amarelo-caspa com fósseis de cabelos alheios. Pensei em chamar o recepcionista pra pedir outra ropa de cama, mas ele tinha sumido. Tive que apelar para o conhecido método McGuyver (ou em bom português, "magáiver"): forrei o travesseiro com meu casaco, e voilà ! Não era a melhor cama do mundo, mas era muito melhor que aquela poltrona maldita que encarei horas e horas. Dormi muito !


sexta-feira, 6 de março de 2015

[Mochilão 13] Dia 1: Rio - Jaipur

Olá pessoal !

Depois de alguns meses de planejamento e muita ansiedade, está começando hoje a Operação Kampuchea, meu novo mochilão em terras asiáticas  !!


Vão ser 3 semanas que prometem ser intensas e divertidas, com muuuita aventura, do jeito que eu gosto. :-)

Primeiro passarei pela Índia, a terra da magia e da espiritualidade. É um lugar que já queria conhecer há um bom tempo. Tudo começou quando li há alguns anos o livro "Expresso para a Índia", de Airton Ortiz, o mestre dos mochileiros. Nesse fantástico livro ele conta com riqueza de detalhes as aventuras vividas por ele durante uma viagem de 3 meses em 2002 percorrendo de trem cerca de 7000 km e descobrindo todas as facetas desse grande caldeirão cultural que é a Índia.  Segue um trecho da interessante entrevista que ele deu sobre este livro: "A milenar cultura indiana é maravilhosa, cada dia é uma surpresa mais emocionante do que o dia anterior. A arquitetura é deslumbrante, a culinária é riquíssima e as tradições religiosas nos conduzem a uma verdadeira overdose de cores, cheiros e sabores, algo impensável para quem está habituado apenas com a monocromia cristã. Mesmo assim, o que mais me fascinou foi a simplicidade das pessoas. Foi preciso ir ao coração de um dos países mais pobres do mundo para descobrir que a suprema sabedoria está na simplicidade."  A entrevista completa está disponível no site da Editora Record, para quem se interessar:  http://www.record.com.br/autor_entrevista.asp?id_autor=2514&id_entrevista=48

Além deste livro, também contribuiram para a escolha da Índia como destino desta viagem os relatos do Sascha, grande amigo meu aqui do Rio. Ele fez uma viagem de 9 meses de volta ao mundo em 2007 e passou um mês na Índia. Gostou tanto de lá, que vive dizendo que quer muito voltar algum dia. Ele publicou algumas de suas incríveis aventuras no site da viagem (http://www.voltaaomundo.org). Segue um trecho do texto que ele publicou sobre a Índia:  "Uma coisa que você repara é que as pessoas em geral, independente de pobres ou ricos, são muito espirituais. A alma é muito mais importante que o corpo e principalmente que o dinheiro."  No mínimo, é um grande choque cultural para um brasileiro acostumado a viver inserido numa cultura onde há uma preocupação exagerada com a aparência física, onde músculos parecem ter mais importância que neurônios, e onde os pobres da periferia gastam todo o salário em Iphones e bonés de marca apenas para ostentar. Vale lembrar que nosso país é lider mundial em número de cirurgias plásticas, e 2o lugar em número de academias de musculação. Será que os indianos são líderes mundiais em meditação e yoga ?

O curioso é que praticamente todos os meus amigos, parentes e colegas de trabalho fizeram cara feia quando contei que estava indo para a Índia nas férias. É um país que realmente tem uma imagem péssima por aqui. As pessoas lembram logo de favelas, miséria, sujeira, esgoto a céu aberto, e animais soltos pelas ruas, exatamente como mostra o filme indiano "Quem quer ser um milionário". Eu acredito que uma das coisas mais interessantes de viajar é poder derrubar estereótipos e surpreender-se. Já fui para alguns lugares que são muito mal vistos no Brasil (como Israel, Bósnia, Sérvia, e Ucrânia), e me surpreendi muito positivamente. Neste exato momento deve ter algum indiano torcendo o nariz para o amigo que disse que vai passar férias no Brasil. "O que ?! Brasil ? Lá só tem favelas, traficantes, ladrões, violência. É perigosíssimo." - alertou o sábio indiano, que assistiu horrorizado ao filme "Cidade de Deus" e agora acha que conhece o Brasil como ninguém. Reproduzindo mais uma vez as nobres palavras do mestre dos mestres da aventura, Amyr Klink:  "Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser. Que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver”. Yes, nós temos favelas, traficantes e ladrões aos montes no Brasil. A Índia tem realmente muita miséria e sujeira. Mas ambos países tem também atrações incriveis e uma cultura única, algo que só é possível vivenciar estando "in loco", em carne e osso, em vez de achar que o mundo é apenas o que a "telinha" mostra.

Minha primeira parada na Índia será Jaipur, a capital do estado do Rajastão, a terra dos marajás, elefantes, palácios e fortalezas medievais. É considerada a região mais bonita da Índia, e está entre as que recebem mais turistas. Depois vou de trem para a cidade de Agra, no estado vizinho de Uttar Pradesh, onde fica localizado o magnífico Taj Mahal, cartão-postal da Índia, Patrimônio Mundial da UNESCO, uma das sete maravilhas do mundo moderno, e um dos mais belos edifícios já construídos pelo homem. Por fim, irei a Nova Delhi, a capital indiana, uma metrópole de 17 milhões de habitantes construída em meio a ruínas de diversas civilizações que já passaram por lá. Por este motivo, é chamada de "Roma do Oriente". O circuito Jaipur-Agra-Delhi é conhecido como "Golden Triangle" e é o roteiro turístico mais famoso do país. 

O segundo país da viagem será o Camboja. Primeiro passarei pela capital, Phnom Penh (pronuncia-se "Nom Pen") e depois parto de ônibus para a Siem Reap, no interior, onde está a principal atração do país e um dos lugares mais visitados do sudeste asiático: o incrível complexo de templos de Angkor, Patrimônio Mundial da UNESCO. Na Idade Média, Angkor foi a capital do Império Khmer, que no seu apogeu, durante o século 13, dominou grande parte do sudeste asiático. O mais surpreendente é saber que Angkor foi durante muitos séculos a cidade mais populosa do mundo, chegando a ter cerca de 1 milhão de habitantes, numa época em que Londres e Paris, as maiores do mundo ocidental, eram pequenos vilarejos de 30 mil habitantes. Após muitas invasões, o império caiu no século 15 e Angkor foi engolida pela selva, permanecendo escondida durante muito tempo em meio a mata fechada. Foi "descoberta" pelo mundo ocidental apenas no século 19. Por terem histórias semelhantes, Angkor é considerada a "Machu Picchu" do oriente.  A proposito, "Kampuchea" significa Camboja no idioma local, o khmer. Daí veio o nome que batizou esse mochilão. 

Em Siem Reap encontro um amigo meu do aqui do Rio, o Ronaldo, e lá pegamos um voo para Cingapura, a sofisticada e cosmopolita cidade-estado que foi um entreposto comercial britânico até os anos 60, quando conquistou a independência e transformou-se num dos Tigres Asiáticos. Hoje é uma ilha de prosperidade e riqueza em meio a pobreza do sudeste asiático. Cingapura está entre os 10 países mais desenvolvidos do mundo, tem o 2o porto mais movimentado do mundo (10 vezes mais movimentado que o porto de Santos) e lidera o ranking dos melhores países para se fazer negócios, de acordo com o Banco Mundial. O Brasil está no 120o lugar deste ranking (que orgulho !) Podíamos mandar uma comitiva do nosso governo para passar uma temporada por lá, heim ?

Depois parto de ônibus para Kuala Lumpur, a capital da Malásia, país multicultural que tem grande parte da população formada por chineses e indianos.

A última parada da viagem será em Dubai e Abu Dhabi (Emirados Árabes), que não eram nada há 50 anos e hoje são cidades riquíssimas graças ao petróleo. Localizadas no meio do caminho entre o ocidente e o oriente, são o lugar ideal para fazer um "stopover" (conexão longa) e descansar um pouco antes de encarar as cansativas 14 horas de voo na volta para o Brasil.

Havia pensado inicialmente em passar também pelo Vietnã e pela Indonésia, mas acabei tendo que cortar estes países do roteiro por falta de tempo. Precisaria de pelo menos mais uns 10 dias para ver tudo que queria. Esses vão ficar para a próxima.

Esta será a minha 3a vez na Ásia,  meu continente favorito. Eu acredito que o grande atrativo de viajar é ver coisas diferentes, vivenciar uma cultura diferente da sua, aprender coisas novas com ela e voltar para casa sendo uma pessoa melhor, trazendo na bagagem um novo olhar para aquilo que você está acostumado a ver e fazer na sua "zona de conforto". Justamente por ser tããão exótica aos olhos de um brasileiro, não tem como não se encantar com a Ásia. É uma espécie de "frutinha mais alta da árvore", metáfora que descreve bem o que é visitar a "terrinha mais distante de casa". Além do exotismo, a Ásia também tem como atrativos os preços ridiculamente baixos, a cultura rica e milenar, as comidas diferentes e saborosas, a cordialidade das pessoas, as paisagens surreais, as coisas bizarras que você vê na rua e que te fazem tirar uma foto a cada 10 metros. Motivos não faltam para amar este continente. O olfato, o paladar, a audição e a visão são bombardeados desde o primeiro instante com sensações indescritíveis, que deixariam qualquer alma brasileira meio desnorteada e sem referências familiares no começo. É uma overdose de exotismo. Minha primeira vez em terras asiáticas foi em 2010. Foi paixão a primeira vista. Passei pela Tailândia, China, Hong Kong e Macau. Meu primeiro dia na Ásia foi em Bangkok. Nunca vou esquecer daquela tarde ensolarada e quente, quando saí ansioso do hostel para dar a famosa "primeira volta no quarteirão", vendo coisas engraçadas e bizarras a todo momento,  como alguém que tinha acabado de chegar a um outro planeta. Em 2012 foi a vez de conhecer o incrível Japão, que continua reinando soberano no topo do meu ranking particular.

Mochilar na Ásia não sai tão caro como muitos pensam. Sim, a passagem aérea do Brasil pra lá costuma sair a um preço salgado (paguei US$ 1500 na Etihad, com conexão em Abu Dhabi), mas os custos em moeda local nos países asiáticos são extremamente baixos. Uma coisa compensa a outra. Acaba saindo o mesmo que uma viagem para os EUA ou para a Europa com a mesma duração. E se o dólar está caro, vale lembrar que as moedas asiáticas também perderam valor como o real, então o custo total da viagem em reais só subiu um pouco por causa da passagem aérea que é tarifada em dólar.

Este é o roteiro completo da viagem:

6/mar Rio-Jaipur
7/mar (dia perdido no voo por causa do fuso horário)
8/mar Jaipur
9/mar Jaipur
10/mar Jaipur-Agra
11/mar Agra-Nova Delhi
12/mar Nova Delhi
13/mar Nova Delhi
14/mar Nova Delhi-Phnom Penh
15/mar Phnom Penh
16/mar Phnom Penh-Siem Reap
17/mar Siem Reap
18/mar Siem Reap
19/mar Siem Reap-Cingapura
20/mar Cingapura
21/mar Cingapura
22/mar Cingapura
23/mar Cingapura-Kuala Lumpur
24/mar Kuala Lumpur-Abu Dhabi
25/mar Abu Dhabi-Dubai
26/mar Dubai
27/mar Dubai-Abu Dhabi
28/mar Abu Dhabi-Rio


Mapa da viagem:





Uma amostra dos lugares por onde passarei:



















 



 








Como de costume, vou levar meu notebook para blogar durante a viagem nas horas vagas mandando noticias, compartilhando as descobertas, aventuras, perrengues, fotos e vídeos dos lugares por onde passarei. A idéia é que você se sinta um integrante da viagem.

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Partiu então ! Mando notícias quando chegar na terra dos marajás !!! Namastê ! Hari Om ! :-)