quarta-feira, 19 de junho de 2013

[Mochilão 10] Dia 22: Jerusalém - Belgrado

De Tel Aviv a Istambul foi 1:30h de voo. Cheguei em Istambul de manhã cedo (6h). Eu estava morto ! E ainda tomei um chá de aeroporto: foram 6 horas esperando a conexão pra Belgrado. Só cheguei lá às 13h , mas pra mim já eram 14h, por causa do fuso de menos uma hora lá. Eu já estava um zumbi. Mal podia esperar por uma cama quentinha e aconchegante. Horário horrível o desse voo, mas era a única opção por menos de 500 dólares (foi 207 dólares, pra ser mais exato) entre Tel Aviv e Belgrado.

Ao sobrevoar Belgrado, deu pra ver que a cidade é bem grande. Vi os dois estádios da cidade, dos arqui-rivais Estrela Vermelha (onde o Pet jogou) e Partizan (atual campeão sérvio). Ficam bem perto um do outro.

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Uma ilha no rio com praia e tudo. A cidade vista de cima lembra muito Kiev.

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Finalmente cheguei na terra do Pet ! No desembarque, deu pra ver que o aeroporto de Belgrado é bem ruim. Acredite, consegue ser pior que o Galeão. Logo depois de sair do avião, passei por um lugar que parecia um “puchadinho” do aeroporto. Na imigração, o policial não perguntou nada, só viu o visto e carimbou o passaporte. O saguão de desembarque era ridiculo de pequeno. Parecia o aeroporto de Florianópolis. Estava completamente lotado, e foi até dificil passar com o carrinho pelo mar de gente. Fui abordado por um monte de taxistas. Tirei uns dinars (a moeda sérvia) num caixa eletrônico e fui procurar o ponto de ônibus do lado de fora.

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Tinha um ônibus chamado “JAT BUS” parado no ponto, mas pelo que olhei numa placa onde estava o itinerário, ele não deixava perto do hostel. Na reserva dizia para pegar o ônibus 72. Subi pro andar de embarque e perguntei no guichê de informações onde ficava o ponto desse ônibus. Era no andar de embarque mesmo. Tinha uma placa no ponto com os horários. Fiquei esperando uns 20 minutos até o ônibus chegar. Paguei a passagem direto pro motorista (172 dinars = R$4,30).

Uma nota de 500 dinars (R$12,50):

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Estava um forno em Belgrado (36 graus). Pelo menos o ônibus tinha ar condicionado. Demorou uns 40 minutos até chegar ao centro da cidade. Passei por bairros de casas e prédios baixos e velhos, todos parecidos uns com os outros. Achei tudo muito parecido com Kiev. No caminho vi uma pequena favela com barracos de madeira e tapumes. Nunca tinha visto isso na Europa.

Desembarquei no ponto final, na rua Zeleni Venac, perto da ponte Brankov.

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Quando estava parado na rua olhando o mapa pra descobrir o caminho até o hostel, apareceu uma menina que perguntou, meio encabulada e num inglês macarrônico, se eu conhecia algum hostel. Era uma russa que havia acabado de chegar à cidade com sua amiga ucraniana, mas não sabiam onde ficariam ainda. Duas belezuras, uma loira e uma morena. ”Hoje é o meu dia de sorte !”, pensei, ehehehhee. Falei pra elas irem comigo até o hostel onde eu tinha reserva, que era mais ou menos perto. Troquei uma idéia com elas no caminho. Estavam de férias viajando pelos balcãs, e iam depois pra Croácia e Montenegro.

Demos uma olhada no mapa, mas a verdade é que eu estava meio perdido. Paramos uma sérvia na rua pra pedir informação, e ela foi bem gente boa. Disse que estava indo pra perto da rua do hostel, e foi acompanhando a gente. Ela foi contando no caminho sobre os lugares interessantes que poderíamos conhecer na cidade, e também sobre os tempos difíceis durante a guerra de 1999, quando a cidade foi bombardeada pela OTAN.

Chegamos ao Hedonist Hostel, que fica na ulitsa (rua) Simina, uma rua tranquila e arborizada.

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A recepcionista do hostel foi bem simpática e fez maior festa quando falei que era brasileiro. Me deu várias dicas de bares e restaurantes legais. A russa e a ucraniana queriam ficar num quarto só pra elas, mas acharam caro e resolveram ficar num quarto coletivo. Só que elas ficaram boladas quando descobriram que o hostel só tinha quarto misto (bem normal nos hostels, e as gringas em geral não tem frescura com isso). Enfim, elas reclamaram com a recepcionista e deram um jeito de ficar em outro quarto coletivo que estava vazio. Sumiram. Se trancaram no quarto e não vi mais as duas depois. Acho que ficaram com medo de mim, ehhehe. Podiam ter pelo menos me agradecido pela “carona” até o hostel !!

O quarto onde fiquei tinha 4 beliches e banheiro dentro. Ar condicionado gelando ! Era tudo que eu mais precisava. Paguei R$41 por dia pra ficar lá.

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Tomei um merecido banho. Já passava de 17h e bateu uma fome sinistra. Mesmo morto de cansado, ainda tive forças para caçar alguma coisa pra comer.

Studentski park, ao lado do hostel:

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Tróleibus:

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Knez Mihailova, a principal rua de pedestres da cidade.

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Fonte de água potável, onde o pessoal também aproveitava pra se refrescar um pouco no calorão que estava fazendo.

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Achei uma lanchonete grega que vendia gyro pita. Comi um por 280 dinares (R$7).

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Não tinha forças pra fazer mais nada. Tinha um anjinho me falando “vai dormir ! vc precisa !”, e um diabinho falando “dormir, dorme no Rio, em reais ! Aqui não, pô !!”. Dessa vez, mas só dessa vez, resolvi ignorar o diabinho e dar ouvidos ao anjinho. Voltei logo pro hostel e desabei na cama.

terça-feira, 18 de junho de 2013

[Mochilão 10] Dia 21: Jerusalém

Acordei cedo, arrumei minha bagagem, e fiz o checkout, pois era meu último dia em Jerusalém.

Fui visitar o principal cartão-postal de Jerusalém: o Domo da Rocha. Ele fica localizado no Monte do Templo, que fica aberto à visitação em horários bastante restritos: 7:30 às 11:00 e 13:30 às 14:30. É o lugar mais visitado da cidade, e as filas costumam ser grandes. Como cheguei cedo (8:30), fiquei só 20 minutos na fila.

O acesso ao Monte do Templo é feito pela praça do Muro das Lamentações, através de uma passarela de madeira. O acesso é gratuito, mas é necessário passar por um detector de raio-x.

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Na entrada há uma placa informando que é proibida a entrada de judeus:

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Isto acontece por motivos religiosos: eles poderiam pisar sem querer no lugar onde existia até 2000 anos atrás o Segundo Templo. Naquela época, só as autoridades máximas do judaísmo podiam ter acesso ao local, o mais sagrado para o judaísmo. Outros judeus até podiam entrar lá, mas estes eram automaticamente condenados à morte. O Segundo Templo construído no século 6 AC no lugar onde antes existia o Templo de Salomão (ou Primeiro Templo), construído a mando do Rei Salomão no século 10 AC para guardar a Arca da Aliança (que tinha as tábuas dos Dez Mandamentos) e destruído na invasão dos babilônios.

O Monte do Templo não é exatamente um monte, mas uma grande esplanada que é cercada pelas muralhas que faziam parte do Segundo Templo. A parte oeste destas muralhas é o Muro das Lamentações (Western Wall, em inglês), que tem este nome porque os judeus lamentam a destruição do Segundo Templo. Como eles não podem entrar no Monte do Templo, ficam fazendo suas orações do lado de fora dele, de frente para o muro.

O Muro das Lamentações visto de cima da passarela:

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Logo depois de ter passado pela passarela, fui barrado de entrar na esplanada do Monte do Templo por um guarda porque eu estava de bermuda. Nem tinha passado pela minha cabeça ficar andando de calça jeans em Jerusalém debaixo daquele calorão. Eu e mais alguns outros turistas tivemos que comprar do próprio guarda um véu para cobrir as pernas. Algumas mulheres também compraram o véu para cobrir os ombros. Fiquei parecendo um escocês... uma beleza, hehe ! :) Os muçulmanos que estavam na esplanada ficaram me olhando atravessado por causa disso... mas tenho medo de cara feia não !!

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A esplanada tem um parque e duas construções sagradas para os muçulmanos: a mesquita de Al-Aqsa e o Domo da Rocha.

Mesquita de Al Aqsa:

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O Domo da Rocha, que foi construído no século 7 após a conquista de Israel pelo Império Turco-Otomano no lugar onde existia até o século 1 o Segundo Templo. Não é uma mesquita, e sim uma espécie de santuário. A cúpula dele é toda revestida de ouro. O acesso ao seu interior só é permitido a muçulmanos. Dentro dele está uma rocha sagrada para judeus e muçulmanos. É o lugar mais sagrado para os judeus, que acreditam que ali Deus criou Adão a partir da poeira. Mesmo sem poder se aproximar do Domo, os judeus fazem suas orações na direção dele, assim como os muçulmanos fazem na direção de Meca. Para muçulmanos, a rocha é o lugar onde o Profeta Maomé ascendeu aos céus.

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Como não pude entrar no Domo, baixei essa foto da internet mostrando o interior dele e a rocha sagrada:

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Uma versão menor do Domo da Rocha ao lado do original:

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No local estavam muitas excursões de crianças árabes:

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Uma turista dando esmola a uma muçulmana:

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Não havia nada escrito em hebraico nesse lugar. Só árabe e inglês.

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Depois de sair de lá, me livrei do “kilt escocês” e fui para o Monte Zion, próximo ao portão de Zion da Cidade Antiga, onde estão alguns lugares sagrados para judeus e cristãos: a tumba do Rei Davi, a Basílica da Dormição (construída no local onde Virgem Maria morreu) e o Cenáculo (onde foi feita a Última Ceia, um ícone do cristianismo imortalizado num quadro de Leonardo da Vinci).

Logo na entrada do lugar, um “tut” (guia picareta) me abordou mostrando a direção onde ficava a Basílica e perguntando de onde eu era. Eu disse que não queria guia, mas ele ficou insistindo e andando atrás de mim. Isso é uma coisa que me tira do sério. Eu acho que tenho pára-raio de tuts. Deixei o cara falando sozinho e fui em outra direção. Quando achei que tinha me livrado dele, sentei numa sombra pra descansar. Ele brotou do meu lado do nada, e perguntou de novo de onde eu era. Não respondi nada. Então ele perguntou: “don’t you want to talk ? don’t you want to be friend ?” Falei “NO !” Acho que ele ficou ofendido que eu não estava dando idéia pra ele. Ficou falando que Jerusalém é uma cidade sagrada, que é a minha cidade também, bla bla bla... e diante da minha indiferença, ele se afastou.

Entrei no Cenáculo, e logo que saí, ele aparece de novo: “My friend ! My friend !”. Que pentelho ! Eu já estava perdendo a paciência. Não quis mais saber de tumba e de igreja nenhuma. Fui embora daquele lugar. Só tirei uma foto lá, a estátua do Rei Davi, que era um exímio tocador de harpa:

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Baixei outras fotos da internet. A Basílica da Dormição de Maria:

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Tumba do Rei Davi:

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Cenáculo:

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Peguei o bonde e fui ver o que tinha no ponto final dele (Heil Ha-Avir), no extremo norte da cidade.

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Era um bairro residencial sem grandes atrativos. A maioria dos prédios em Jerusalém são baixos, de 5 ou 6 andares, e todos tem fachada feita de pedra sabão, uma exigência arquitetônica para que as construções combinem com a Cidade Antiga.

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Até o shopping é de pedra sabão:

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Voltei para a King George Street, onde peguei o ônibus 7 para ir ao Museu de Israel, que fica num bairro afastado por onde o bonde não passa. O ônibus andou um tempão e nada de chegar no museu. Até que chegou no ponto final, o kibbutz Ramat Rachel. Algo estava errado. Eu e mais duas sul-africanas (que também estavam indo pro museu) perguntamos pro motorista onde ficava o museu, e ele disse que pegamos o ônibus na direção errada, e que teríamos que fazer o caminho todo de volta. Tivemos que esperar outro ônibus da mesma linha passar, e ele demorou quase meia hora. Nesse tempo fiquei trocando uma idéia com as sul-africanas. Elas contaram maravilhas da África do Sul e eu até fiquei com vontade de conhecer este país. Depois de fazer o caminho todo de volta, finalmente chegamos ao museu.

Este é o principal museu de história e arqueologia de Israel. Além de muito interessante, o lugar é muito bonito e bem cuidado.

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Mosaicos romanos:

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Azulejos árabes:

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Uma maquete gigante que mostra como era Jerusalém 2000 anos atrás, antes da destruição do Segundo Templo:

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Interessante também é a mostra do museu sobre a língua hebraica. Poucos sabem, mas ela foi uma língua morta por cerca de 2.300 anos. Foi utilizada para a escrita da Torá, a Bíblia judaica, e era a língua mais falada em Israel, mas passou ser substituída pelo aramaico a partir do século 6 AC (quando houve a invasão persa) até cair em desuso, aprofundado com a diáspora (exílio dos judeus em outras regiões fora de Israel). O aramaico foi, portanto, a língua falada por Jesus. O hebraico só renasceu há pouco mais de 100 anos com os esforços do linguista Ben Yeruda em estabelecer uma língua única para os judeus, que chegavam a Israel vindos de diversos países europeus.

A visita a este museu me ajudou muito a entender a tumultuada história de Israel, e o porquê de tanto conflito entre judeus e muçulmanos. Algo que eu sempre me perguntava: quem chegou primeiro à Israel, judeus ou muçulmanos ? Os judeus foram os primeiros habitantes de Israel, tendo chegado com Abrahão e sua tribo nômade da Mesopotâmia no século 18 AC. Desde então, ao longo dos séculos, eles foram expulsos e perseguidos diversas vezes por invasores, se exilando em regiões da Europa, Oriente Médio e África. O islamismo chegou a Israel apenas no século 7 com a invasão persa. Os muçulmanos passaram a ser maioria absoluta da população. Os judeus só voltaram a ser maioria novamente a partir de 1948 com o crescimento da imigração.

Segue um resumo da história de Israel:

- Século 18 AC: Abraão deu origem aos israelitas, o povo de Israel, ao levar sua tribo da Mesopotâmia para Canaã, como era conhecida a “terra prometida”.

- Século 10 AC: os israelitas viviam em tribos isoladas que precisavam ser unificadas para se fortalecerem contra as constantes invasões. O Rei Davi, líder de uma delas, conquistou Jerusalém e tornou-a a capital do Reino de Israel e centro religioso do seu povo, trazendo muita prosperidade para a região. Seu nome é citado muitas vezes no Antigo Testamento da Bíblia. Foi ele que ordenou que a Arca da Aliança (que continha as tábuas dos Dez Mandamentos) fosse transportada para Jerusalém, onde anos depois seu filho e sucessor (Salomão) mandou construir um templo (o Templo de Salomão, ou Primeiro Templo) para guarda-la.

- Século 6 AC: Israel foi invadida pelos babilônios, que destruíram Jerusalém e o Templo de Salomão. Os judeus, como eram chamados os habitantes de Judá (parte sul de Israel onde está Jerusalém) foram expulsos e se exilaram na Babilônia. Esta foi invadida anos depois pelos persas, que permitiram que os judeus retornassem a Jerusalém. Pouco depois, foi construído o Segundo Templo no lugar onde existia o Templo de Salomão.

- Século 4 AC: Alexandre, o Grande, conquista Jerusalém, iniciando o período de dominação grega,

- Século 1 AC ao século 4: período de dominação romana. No ano 70, Jerusalém e o Segundo Tempo foram destruídos pelos romanos durante uma revolta dos judeus, que foram expulsos. Do templo só sobraram as muralhas que o cercavam, e que existem até hoje. A parte oeste delas é o famoso Muro das Lamentações.

- Século 4 ao 7: período de dominação bizantina (cristã). Muitas igrejas de Jerusalém são desta época.

- Século 7 a 11: o islamismo chega a Israel com a invasão persa. As igrejas de Jerusalém são destruídas. O Domo da Rocha é construído no lugar onde existia o Segundo Templo.

- Século 12 : dominação das cruzadas, que partiram da Europa Ocidental para conquistar a chamada “Terra Santa” e mantê-la sob domínio cristão. Judeus e muçulmanos foram perseguidos.

- Século 13 a 1517: dominação dos mamelucos (islâmicos). Judeus e muçulmanos puderam voltar à Jerusalém.

- 1517 a 1917: dominação do império Turco-Otomano (islâmico). Os judeus eram perseguidos na Europa e passaram a imigrar para Israel. A partir de 1850, eles passam a ser maioria em Jerusalém, algo que não acontecia desde a expulsão dos judeus pelos romanos no século 1.

- 1917 a 1948: período de dominação britânica. A imigração de judeus para “Palestina Britânica” continua, e cresce com a perseguição dos nazistas durante a 2ª Guerra Mundial. O crescimento da população judaica causou ressentimentos entre os árabes, que viam seus interesses ameaçados, e organizaram diversas revoltas contra os judeus nesta época. Os britânicos não conseguiam encontrar uma solução fácil para os conflitos entre árabes e judeus, e entregaram o controle da região para a ONU. Esta aprovou em 1947 um plano de partilha do território da Palestina Britânica entre dois Estados, um judeu e outro árabe. O Estado árabe englobava os territórios atuais da Faixa de Gaza, Cisjordânia e parte do território atual de Israel. O Estado judeu era o restante, incluindo a faixa litorânea de Tel Aviv a Haifa e o deserto de Negev. Os judeus aceitaram o plano e declararam independência, mas os árabes não reconheceram a partilha.

- 1948: criação do Estado de Israel após a declaração de independência assinada por Ben Gurion. Isso enfureceu os árabes, que não reconheceram a criação de um Estado judeu, provocando a Guerra árabe-israelense. Ao final dela, em 1949, a Cisjordânia foi ocupada pela Jordânia e a Faixa de Gaza pelo Egito. Israel aumentou seu território em cerca de 1/3 em relação ao que foi estabelecido no plano de partilha da ONU. Jerusalém foi uma cidade dividida ao meio, como era Berlim. Jerusalém Oriental e a Cidade Antiga pertenciam à Jordânia, e a parte ocidental (Cidade Nova) à Israel. O setor judaico da Cidade Antiga foi destruído pelos árabes, principalmente as sinagogas. Os judeus ficaram 19 anos sem poder ter acesso ao Muro das Lamentações, o lugar mais sagrado para eles.

- 1967: Após a Guerra dos Seis Dias, Israel ocupa novamente a Faixa de Gaza e a Cisjordânia, além da Península do Sinai (do Egito) e Colinas de Golã (da Síria). Jerusalém, volta a ser unificada sob domínio israelense. O controle do Sinai foi só foi devolvido ao Egito em 1979.

- Anos 90: assinados acordos de paz entre israelenses e palestinos. A Cisjordânia foi dividida em 3 zonas: A, B e C, sendo que apenas a zona A é controlada pela Autoridade Nacional Palestina.

- 2000-2005: o crescimento dos assentamentos israelenses na Cisjordânia e Faixa de Gaza levou à Segunda Intifada, um período muito violento de revolta palestina, com diversos atentados suicidas praticados por extremistas do Hamas. A resposta de Israel foi a construção de um muro de 760km ao redor da Cisjordânia e outro em volta da Faixa de Gaza. Palestinos são proibidos de entrar em território israelense, não podendo mais, portanto, visitar os lugares sagrados para o islamismo em Jerusalém. Israel remove todos os assentamentos de judeus na Faixa de Gaza.

- 2006 até hoje: o número de atentados foi drasticamente reduzido. O governo israelense atribui isso ao muro, que estaria dificultando a entrada de terroristas em Israel. O país vive uma espécie de renascimento, e o turismo volta a crescer com força. O foco de tensão entre israelenses e árabes se concentra na Faixa de Gaza, dominada pelos fundamentalistas islâmicos do Hamas, que também entra constante atrito com o Fatah, grupo moderado que rejeita a violência e atualmente governa os territórios palestinos na Cisjordânia.

O Santuário do Livro, anexo ao museu, foi construído para guardar o tesouro mais importante da mostra: os Manuscritos do Mar Morto, encontrados numa caverna próxima ao Mar Morto na década de 40. Eles contém partes da Bíblia hebraica escritos no século 2 AC. É a versão mais antiga já encontrada da Bíblia até hoje. Não podia tirar foto no local, mas baixei estas fotos da internet:

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Peguei o ônibus, voltei pra Yaffa Road, comi um shawarma e voltei pro hostel.

Hora de dizer adeus a Israel. Peguei minha mochila e fiquei esperando na recepção a sherut (van) para o aeroporto. Até dava para ir de trem, mas como a estação ferroviária de Jerusalém é afastada, fiquei com preguiça de pegar um ônibus até lá. Paguei 60 shekels (R$37) na van. Já era 1h da manhã quando ela chegou. Estava vazia, passou em vários hotéis de Jerusalém até encher. Fiquei preocupado com o horário do voo, porque não sabia se ia demorar pra chegar ao aeroporto, que fica no meio do caminho entre Jerusalém e Tel Aviv, mas chegou bem rápido. Pouco antes de chegar, passamos por um checkpoint. Entrou um guarda na van, que olhou para todos os passageiros e pediu para verificar só o meu passaporte e de mais outro passageiro. Éramos os únicos estrangeiros na van. Esses guardas são treinados pra identificar fisionomias. Não me perguntou nada e liberou a van.

No saguão de embarque do aeroporto havia uma fila única pra passar a bagagem num detector de raio-x gigante. Para poder despachar a bagagem no checkin, tinha que passa-la primeiro nesse raio-x. Nessa fila, guardas pediam para ver o passaporte e faziam um monte de perguntas aos passageiros. Me perguntaram pra onde eu estava indo, onde eu estive em Israel, se tinha família judaica, se alguém tinha mexido na minha bagagem, etc. Depois de passar no raio-x, o guarda me levou até um quiosque, onde minha mochila foi toda revistada. Tiraram TUDO e revistaram até minhas meias sujas. Depois tive que arrumar a mochila toda de novo. Que fase ! Despachei a bagagem, e na hora de entrar no salão de embarque, mais outro raio-x pra bagagem de mão. Agora foi a vez da minha mochila pequena passar pelo pente fino. Revistaram tudo, inclusive o notebook e o pacote de biscoitos (!!). Chato demais passar por tudo isso, mas os israelenses precisam desse controle rigoroso. Eles sabem que estão cercados de países árabes que não são lá muito fãs de judeus.

Só faltava passar por sabatina de novo no controle de passaporte, mas felizmente a guarda só carimbou o cartão de imigração e não falou nada. Quem tiver um passaporte carimbado por Israel não pode entrar nos países árabes. Desta forma, Israel só carimba um cartão de imigração na entrada, que precisa ser apresentado junto com o passaporte na saída.

Finalmente embarquei às 4:30 da manhã rumo a Belgrado. E minha aventura na Terra Santa chegava ao fim. Israel é um lugar fantástico ! Só quem já foi pra lá entende do que estou falando. Minha visita foi muito mais interessante do que eu imaginava. Este foi o 2o país que mais gostei, entre os 44 por onde já passei, perdendo apenas pro Japão !!!

segunda-feira, 17 de junho de 2013

[Mochilão 10] Dia 20: Jerusalém - Belém

Finalmente acordei a tempo de pegar o café da manhã do hostel. Era bem básico: pão de forma, queijo, café, leite, sucrilhos. Nada de frutas, sucos ou iogurtes. E ainda tinha que lavar a louça no final. Pelo menos estava incluído na diária, coisa bem rara nos hostels.

Peguei o bonde na Yaffa Road para conhecer o Museu do Holocausto. Andar de bonde em Jerusalém é muito simples. Basta comprar a passagem num caixa automático existente nos pontos. Depois, ao embarcar, tem que validar a passagem numa máquina dentro do bonde. Custa 6,60 shekels (R$4) e é válida por 1 hora e meia, podendo ser usada também nos ônibus.

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Desci na estação final, Mount Herzl, num bairro montanhoso e afastado do centro.

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O Museu do Holocausto (Yad VaShem) fica perto do ponto final.

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Na entrada, o guarda me olhou com uma cara de desconfiado e perguntou de forma ríspida: “Where are you from ?”. Como eu estava com a camisa do Flamengo, ele deve ter confundido com as cores da bandeira da Palestina.

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A entrada é gratuita. O museu é bastante interessante e mostra fotos, vídeos, relatos e objetos que retratam o holocausto, que foi o assassinato de 6 milhões de judeus por nazistas alemães em diversos países da Europa durante a 2ª Guerra Mundial. 6 milhões equivale a quase toda a população de judeus que vive atualmente em Israel. Vale notar que na época do holocausto os judeus eram uma minoria (15%) na então Palestina Britânica (territórios atuais de Israel, Faixa de Gaza e Cisjordânia). Após o retorno dos judeus para a “Terra Prometida”, eles são mais ou menos metade da população somada de Israel e dos territórios palestinos .

Não podia tirar foto no museu, mas eu baixei estas fotos da internet:

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Em alguns vídeos, sobreviventes relatam detalhes macabros de como foi a captura pelos nazistas, o transporte em vagões superlotados até os campos de concentração, e a rotina de sofrimento nestes lugares. É de embrulhar o estômago.

No parque onde o museu está localizado há jardins e monumentos com homenagens diversas, como o memorial às crianças mortas durante o Holocausto, e a chama eterna.

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Peguei o bonde de volta para o centro de Jerusalém, onde comi um falafel no mesmo lugar de ontem: o Mishiko, na rua Ben Yeruda. Essa lanchonete é bem famosa e tem um dos melhores falafels e shawarmas da cidade. É particularmente popular também entre os turistas (quase todos americanos). Todos os atendentes falam inglês.

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Muitos restaurantes e lanchonetes exibem na parede o “Kosher Certificate”, atestando que o local só serve alimentos que respeitam a dieta kosher judaica, na qual determinadas regras precisam ser seguidas (como jamais misturar carne com laticínios, por exemplo).

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O preço varia de acordo com o tamanho do pão: pita (pão sírio), laffa (um pita maior e mais fino) e baguette. O falafel no pão pita custa 15 shekels (R$9) e no laffa 20 shekels (R$12).

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Você escolhe os ingredientes que vão acompanhar o falafel (bolinhas fritas de grão de bico) ou o shawarma (carne de carneiro): hummus, alface, tomate, picles, pepino, cebola, repolho e um molho picante.

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Eis o resultado...muito bom !!

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Depois resolvi fazer um passeio do tipo “Não Conta Lá em Casa”: fui conhecer a cidade de Belém (Bethlehem, em inglês), que fica na Cisjordânia (Palestina). Muitas agências de turismo de Jerusalém fazem excursões para cidades palestinas. As pessoas em geral se sentem mais seguras indo em grupos, e com um guia local. A questão é que essas excursões são bem caras. A agência de turismo do albergue onde fiquei cobrava 180 shekels (R$110) para um passeio de 4 horas em Belém. Pelo que li no Lonely Planet, era seguro ir por conta própria pra lá, bastando pegar o ônibus 21 na rodoviária árabe de Jerusalém, que fica ao lado do Portão de Damasco da Cidade Antiga. E como sou mochileiro e tenho espírito aventureiro, não pensei duas vezes: “vou pegar esse ônibus !”

Chegando na rodoviária, o ônibus estava lá, parado no ponto, com um monte de passageiros árabes embarcando. Pensei uma, duas, três vezes... confesso que bateu um frio na barriga. Amarelei. O ônibus foi embora, e eu fiquei lá sentado num banco tomando coragem para pegar o próximo. Deu uns 10 minutos e o ônibus seguinte chegou. Minha mente estava tentando encontrar alguma desculpa para eu não ir: “vai ser perrengue demais, não vai valer a pena”, “os soldados israelenses vão me fazer uma sabatina na hora de passar no checkpoint”, “vou me perder lá e nunca mais vou conseguir sair da Palestina”, “não tem nada de interessante lá para ver”. E antes que minha mente inventasse mais coisas, o segundo ônibus foi embora. Joguei a toalha. Levantei e já estava indo embora do lugar, mas me bateu de repente uma vontade louca de entrar no ônibus seguinte. Eu tinha certeza de que depois me arrependeria profundamente se eu fosse embora de Israel sem conhecer a Palestina. Voltei pro ponto. Chegou o terceiro ônibus. Respirei fundo, tomei coragem e entrei nele. Paguei a passagem pro motorista (7,30 shekels = R$4,50). Era um ônibus de turismo com ar condicionado. Só tinha árabes quando entrei, mas depois entraram também duas americanas e um casal gringo também. Uma das americanas (que devia ter uns 25 anos) sentou do meu lado e a gente ficou conversando. Ela falou que é cristã, estava morando por um tempo em Belém, e contou coisas interessantes de lá.

Belém é muito perto de Jerusalém. Fica a apenas 8 Km. Saindo do centro da cidade, o ônibus passou por um túnel, e ao sair do outro lado surgiu a imensidão do deserto.

Placa na estrada:

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O trajeto completo não demorou nem meia hora. Não passamos por nenhum checkpoint (controle de fronteira).

Na entrada de Belém, esta placa avisa que estamos entrando num território pertencente à Autoridade Palestina (Área A), e que é ilegal a entrada de cidadãos israelenses.

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Explicando isso de maneira rápida: num acordo de paz entre israelenses e palestinos, a Cisjordânia foi dividida em Área A (administrada por palestinos, inclui cidades palestinas como Belém e Ramallah, esta última a capital administrativa da Palestina), Área B (controle militar de Israel e controle civil palestino, inclui vilarejos e áreas rurais palestinas) e Área C (controle israelense, inclui rodovias, assentamentos israelenses e o Mar Morto). Cidadãos israelenses não podem entrar na Área A. Palestinos têm livre acesso a todas as áreas da Cisjordânia, mas não podem entrar em Israel. Eles são barrados nos checkpoints nas rodovias pelos soldados israelenses que fazem o controle de fronteira. Não há como eles entrarem em Israel por fora das rodovias, porque toda a Cisjordânia está cercada por muros. Turistas estrangeiros têm livre acesso a todos os territórios de Israel e da Cisjordânia, bastando mostrar o passaporte quando solicitado nos checkpoints.

Olhando para este mapa fica mais fácil de entender. A parte em verde é administrada por palestinos (Área A), e o restante por israelenses. Os triângulos são assentamentos israelenses na Cisjordânia, motivo de ódio para os palestinos. Jerusalém fica bem na divisa entre a Cisjordânia e Israel.

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O governo israelense construiu um muro de cerca de 760km ao redor da Cisjordânia sob o pretexto de evitar a entrada de terroristas palestinos em seu território. Após grande parte do muro ter sido concluída em 2005, o número de atentados suicidas em território israelense de fato foi reduzindo drasticamente. No mapa abaixo, em vermelho, o traçado dos trechos concluídos do muro até no ano passado:

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Jerusalém está em território israelense, e o muro passa fora da cidade (linha vermelha no mapa abaixo). Desta forma, palestinos habitantes da Cisjordânia não podem entrar em Jerusalém, uma das cidades sagradas para o islamismo. Os israelenses têm total controle sobre toda a cidade, incluindo a parte oriental, que é árabe e pertencia à Jordânia (assim como toda a Cisjordânia) antes da guerra de 1967 vencida por Israel.

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Um trecho do muro na entrada de Belém:

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O ônibus parou no ponto final, e ao descer dele, eu e os outros turistas fomos abordados por taxistas palestinos que queriam empurrar pra gente passeios com preços astronômicos. Eu tentei me afastar dali o máximo que eu pude e entrei na primeira rua que eu vi. O cara que veio atrás de mim era muito, mas muito chato e insistente. Eu falei várias vezes que não queria, mas ele sumia e minutos depois aparecia de novo tentando me convencer a pagar 150 shekels (R$92) por duas horas de passeio de taxi pelos principais pontos turísticos de Belém. Fui categórico: “I am the wrong guy, you are wasting your time”, mas mesmo assim ele ia atrás de mim. “Excuse me ! Excuse me ! My friend, wrong direction ! Wrong direction ! There’s nothing there !”. Ele ficava me mostrando um mapa, dizia que eu estava indo na direção errada e que as atrações eram para outro lado. Eu não tinha um mapa de Belém, e realmente não fazia idéia do caminho que deveria fazer para chegar à zona turística (onde fica a Igreja da Natividade), mas só pensava me afastar daquele mala. E deu certo. Deixei o cara falando sozinho, e depois de um tempo ele desistiu. Um quarteirão depois, olha só o que aparece: uma placa indicando o caminho da Igreja da Natividade !! Eu estava indo mesmo na direção correta, e o taxista mala estava querendo me enganar. Meu senso de direção intuitiva estava apurado :)

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Como estava sem mapa, bastou ir seguindo as placas e ir prestando atenção nas ruas, pois na volta teria que fazer o mesmo caminho de volta para chegar ao ponto de ônibus.

Belém é famosa no muito todo por ser a cidade onde Jesus nasceu. Eu imaginava um pequeno vilarejo palestino com casas pobres, gente humilde, rebanhos de cabras e paisagens bucólicas, mas me surpreendi. É uma cidade de 30 mil habitantes, com muitos prédios, hotéis, bancos, e um comércio diversificado. Confesso que não vi nenhuma pobreza. Muitos carrões passavam pelas ruas.

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Vi muitos turistas estrangeiros na cidade, mas bem menos que em Jerusalém. Nenhum brasileiro. Em Jerusalém vi alguns poucos brasileiros.

Uma mesquita ao lado de uma propaganda de bicicleta, com link no Facebook e tudo:

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Tudo em árabe...

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Os números das casas também aparecem em algarismos árabes:

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Os palestinos tem suas próprias empresas de serviços públicos (como telecomunicações) e bancos, não dependendo desta forma das empresas israelenses. Um orelhão (quebrado) da Palestine Telecomunications:

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Bank of Palestine:

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Provedor de internet:

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Um ícone do capitalismo norte-americano bem no meio da Palestina:

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Orgulho palestino:

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Carro da polícia palestina:

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Enfim, depois de caminhar uns 20 minutos, cheguei à zona turística de Belém. Esta é a Praça da Manjedoura:

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A distância para Jerusalém. Tão perto que dava até pra ir correndo ou de bicicleta :)

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“Reze pela liberdade da Palestina”

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A Igreja da Natividade, famosa por ter sido construída no local onde acredita-se que Jesus nasceu, uma estribaria com animais guardados por pastores. É uma das igrejas mais antigas do mundo, construída no século 4, época em que a região era uma província do Império Romano.

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A entrada da igreja é feita por uma porta minúscula:

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O interior desta igreja é bastante simples:

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Uma parte do piso original da igreja, um mosaico romano:

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Uma multidão de turistas se aglomeravam para tocar na estrela prateada, o ponto onde acredita-se que Jesus nasceu:

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Aqui acredita-se que existia a manjedoura (lugar utilizado para alimentação de animais) onde Jesus foi colocado logo após ter nascido:

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Saindo da igreja, dei uma volta rápida pelos quarteirões da Cidade Antiga, onde a Praça da Manjedoura e a Igreja da Natividade estão localizadas.

Mercados e uma mesquita:

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Apesar da proximidade com Jerusalém, a Palestina na prática é realmente um outro país. A única coisa que faz lembrar Israel é a moeda (a Palestina também usa o shekel). Todo o resto é diferente: a cultura, o idioma, a religião...

Não há nenhum sinal do idioma hebraico em Belém. Nem mesmo nas placas indicando atrações turísticas. Os palestinos em geral falam inglês, então não tive problemas para me comunicar.

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Pichações em árabe:

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Mercados:

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Os preços na Palestina são bem mais baixos que em Israel, incluindo aí alimentação e hospedagem.

Moda muçulmana:

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Um portão na Cidade Antiga:

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Grifes da lojas: Ralph Lauren, Hugo Boss, Calvin Klein, Brazil... :-)

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Cartaz de um festival de música e dança com grupos palestinos e suecos. “Musica além das fronteiras”, diz o cartaz.

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A bandeira palestina entre a foto do atual presidente da Autoridade Nacional Palestina (ANP), Mahmoud Abbas, e do anterior, Yasser Arafat, que morreu em 2004. A ANP governa a Área A da Cisjordânia (cidades palestinas), além de ter controle civil (mas não militar) da Área B (vilarejos palestinos e áreas rurais). Governa também toda a Faixa de Gaza. O Estado da Palestina é atualmente reconhecido pela ONU e por 138 países, entre eles o Brasil. Apenas 9 não o reconhecem, entre eles os EUA, Israel (óbvio) e o Canadá.

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Cartaz com a imagem do nascimento de Jesus e o mapa da Palestina ao fundo:

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Bandeira palestina:

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Começou a ficar tarde e resolvi voltar pra Jerusalém. Fui fazendo o caminho de volta para o ponto do ônibus tentando me lembrar das ruas por onde passei na ida. Chegou uma hora que comecei a perceber que estava indo pelo caminho errado. Acontece que isso foi a melhor coisa que poderia ter acontecido, porque me deparei, assim meio que sem querer, com a imensidão do muro que cerca a Cisjordânia. Esse muro passa dentro da cidade e me fez lembrar muito o muro de Berlim, porque também tem muitos grafittis e mensagens de protesto. A diferença é que o muro da Cisjordânia é muito mais alto. Neste trecho devia ter quase 10 metros !!

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Alguns grafittis são emblemáticos: “Love wins”, “The wall must fall’, “Palestine will never die”. A sensação que fica é a de que a história de Berlim se repete na Palestina.



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Um cartaz colado no muro avisa: "Este local foi ocupado ilegalmente”.

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Voltei alguns quarteirões no caminho que tinha feito e consegui encontrar o ponto do ônibus:

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Poucos minutos depois, passamos no temido checkpoint para poder entrar em território israelense. Parecia um pedágio. O ônibus encostou e todos os árabes desceram para apresentar seus documentos para os soldados israelenses. Palestinos são proibidos de entrar em Israel. Estes árabes são cidadãos israelenses, muito provavelmente moradores de Jerusalém Oriental, que nasceram em Israel e formam cerca de 20% da população do país.

Os turistas estrangeiros não precisaram descer do ônibus. Subiram dois soldados israelenses (armados com fuzil) e pediram o passaporte a cada um dos passageiros. Momento tenso, mas no final das contas, não deu nada. O soldado só olhou o meu passaporte (nem abriu), e não perguntou nada.

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No caminho de volta, a estrada passa por diversos trechos do muro que cerca a Cisjordânia (Palestina):

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O ônibus chegou na rodoviária árabe de Jerusalém, e fui caminhando pela Yaffa Road.

Neste local, na movimentada esquina da Yaffa Road com King George Street, onde havia uma filial da rede de pizzarias Sbarro, aconteceu em 2001 um dos piores atentados terroristas da história de Jerusalém, de autoria de um suicida do grupo extremista islâmico Hamas. 15 pessoas morreram. Hoje no local há uma padaria.

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Foi colocada uma placa em hebraico no local do atentado em homenagem às vítimas.

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Felizmente os anos violentos em Israel parecem ter ficado para trás. Atualmente os confilitos estão concentrados na região da Faixa de Gaza, governada pelos fundamentalistas do Hamas. Jerusalém não teve nenhum atentado de 2004 até 2011, quando explodiu uma bomba num ponto de ônibus, matando uma pessoa. O governo israelense atribui a redução dos atentados à construção do muro em volta da Cisjordânia e da Faixa de Gaza, o que estaria impedindo a entrada de terroristas palestinos em Israel. Desta forma, Israel vive uma espécie de renascimento, e o turismo, que estava sériamente afetado na época mais violenta há 10 anos, voltou com força ao país.

Vi este enigmático cartaz em muitos lugares de Jerusalém. Trata-se de uma homenagem póstuma ao rabino Menachem Mendel Schneerson, que foi um famoso líder de uma ramificação do judaísmo ortodoxo.

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Comi um shwarma (kebab) na rua Ben Yeruda (26 shekels = R$16) e voltei pro albergue.

No quarto chegaram um italiano e dois caras de Taiwan. Eles ficaram espantados com a minha coragem quando eu disse que fui sozinho num ônibus árabe pra Palestina. Sobrevivi e voltei inteiro, são e salvo. Valeu muito a pena, foi uma experiência única !! Não tenho dúvidas de que corro mais riscos andando de noite numa rua deserta em qualquer grande cidade brasileira. Posso dizer que é totalmente seguro ir de Jerusalém para a Palestina por conta própria. Imaginava um monstro, e foi uma formiga. Em vez de gastar 180 shekels (R$110) com uma excursão, gastei apenas 14,60 (R$ 9) ! O medo, definitivamente, é caro.

Os taiwaneses também ficaram surpresos quando eu disse que no Brasil temos direito a 1 mês de férias por ano. Eles falaram que em Taiwan é só uma semana, e por isso, as pessoas aproveitam para viajar mais quando ainda são estudantes, porque sabem que depois que começam a trabalhar, praticamente não tem descanso. Dá pra ser feliz com 1 semana de férias por ano ??